tFonseca e Sousa

De vez em quando.

Publicado em: 19-05-2010 | Titulo: FESTANÇAS DA BEIRA

 

 

Antigamente, já posso contar bem cinquenta anos, o ano civil tinha várias festas religiosas. E Côja e as aldeias que a circundam podiam gabar-se de uma vida intensa neste capítulo.

Havia, logo no início do ano, a de S. Sebastião que era organizada, dirigida e responsabilizada por jovens de ambos os sexos, mancebos e mancebas, no sentido feminino do termo e nada mais, que se mancomunavam com o padre da freguesia para essa festa tradicional, herança de antanho, mantida no fulgor e no prazer da juventude e que se materializava na participação activa e gostosa de toda a freguesia.

Depois, era a de S. Pedro, creio que já de rapazes e raparigas casados, que assestavam com o prior da freguesia o dia para os finais de Junho.

E havia mais festas, concerteza, de que eu já não tenho tanta lembrança. Era uma alegria! Podem crer aqueles que já não as viveram.

Hoje tenho sérias e fundadas dúvidas se elas eram fundamentalmente religiosas, místicas, ou intrinsecamente seculares, prosaicas, de uma tradição mais enraizada no profano.

Seja como for, lembro-me bem que a penúria da altura – tempos maganos! -dava, nesses dias, mais sabor à confraternização salutar que juntava as pessoas, que cosia ainda mais as proximidades familiares através das viandas que a resteva da serra trazia enroladas numas sacas de pano, resguardo de fiscais seguidistas, como hoje ainda os há, e que faziam as delícias da mesa de linho branco posta nessa altura para brindar os convivas com as carnes saborosas, com o vinho por vezes arreganhado que se ia buscar à adega e que desenhava na toalha cânticos de louvor a Dionysus e também a Thalia, das três graças a da boa disposição, e do arroz-bem-doce e da tal tijelada com manta de negridão mas amarelinha nas entranhas deliciosas.

E tudo tinha um sabor de festa, de cânticos místicos, de excepção do quotidiano pobre, alegre, azedo. E era festa, amigos, tão grande que ainda hoje ela nos roe quando macaqueamos a buscar coisas antigas!
Tudo se foi. Não sei se por incúria das gentes, se por calanzice do presbitério, se por imperativos do solidéu, se por deslize dos tempos, ou se por todas as razões juntas. Mas foi.

Agora no Salgueiral de Côja, terra abandonada, mais pelos que desta vida se foram e pelas autarquias que pelas gentes autóctones e amigos, há pessoas interessadas em reviver, de certa forma, as festas que antigamente existiram. Se não mesmo como se faziam, pois já não há báculos como antigamente, nem gentes como antigamente, nem vontades como antigamente, pelo menos com a frescura e sobretudo com a alegria com que antes se viviam, e com amor, ao Sangue, à Terra, à Pátria, aos Pais e Avós, à Madre-Natureza.

E ainda bem, para gáudio dos salutarmente saudosos, dos mestiços de progresso e tradição, daqueles que sabem fazer bem a diferença entre o saudosismo piegas e balofo e aquele que revigora porque é genuíno. Peneiras há muitas, sabemos nós, mas também sabemos a que elas conduzem.

Saibamos gostar daquilo que é nosso, genuíno, pitoresco.

Sem complexos, sem receios, mas munidos daquele amor forte por tudo de bom que é nosso e que os nossos ancestrais nos deixaram.

Vivam as festas do Salgueiral e vivam os festeiros e as gentes que irão folgar, e comer, e beber à saúde da vida – que ela passa depressa e não volta mais, digo eu.



 

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