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Escreveu Arganil e o seu Concelho.
Nasceu na Cerdeira, no dia 30 de Julho de 1900.
Filho de dr. Alberto da Maia e Cruz do Vale (médico adepto da República)
e de D. Maria Adelaide da Costa Cardoso. Residentes em Coja, foi aí que
Fernando Vale aprendeu as primeiras letras, que teriam continuidade em
Coimbra, no Colégio S. Pedro e Liceu Central José Falcão.
Posteriormente, concluiu com distinção a sua licenciatura em Medicina e
Cirurgia. Antes, porém, já era pai de três filhos, o primeiro dos quais
perecera com tenra idade.
Cedo começou a demonstrar a sua propensão para as questões sociais,
estando sempre ao lado dos desfavorecidos, alinhando com os defensores
da fraternidade e da solidariedade.
Seguindo o exemplo de seu pai, iniciou o exercício da Medicina em
Arganil, num meio bastante carenciado, onde as suas preocupações se
voltaram para a saúde, mas sem descurar a sua intervenção cívica.
Confessaria publicamente, que « muitas vezes senti a angústia do
isolamento e de me sentir perdido naquela solidão. Mas isso era o menos,
comparado com o peso da responsabilidade de ter de resolver, localmente,
o caso para que, afirmativamente, tinha sido chamado».
Transformou o velho Hospital que funcionava no edifício legado pela
Condessa das Canas. Iniciou a subscrição para a aquisição de um aparelho
de Raio X (anos 30) e angariou fundos para a instalação de um
dispensário Antituberculoso. Paralelamente, ajudava a fundar a Sociedade
Recreativa Argus, instituição que viria a dar origem à Associação dos
Bombeiros Voluntários Argus. Em 1933, ajuda a formar a União Recreativa
Sarzedense e em 1934 dá o seu apoio para que o Posto Médico da
Assistência Folquense entre em actividade.
Em 1940, sucede no cargo de Delegado de Saúde ao dr. José Leitão.
Em 1943, quando o Prof. dr. Bissaya Barreto, visita Arganil como
presidente da Junta Provincial, é sem relutância que no Livro de Honra
da Misericórdia elogia o seu colega, escrevendo «Ao visitar de novo o
Hospital de Arganil, encontro-o em plena actividade e admiro a sua
instalação, organização e dedicação. É um Hospital que honra esta vila e
que documenta o espírito de bairrismo e de solidariedade que liga os
habitantes desta terra».
Todavia, todas as melhorias registadas no Hospital de Arganil não foram
tidas em linha de conta pelas autoridades oficiais que, de forma
drástica, demitem o dr. Fernando Vale dos cargos públicos que exercia,
só por ter apoiado a candidatura do general Norton de Matos, em 1949.
Identificado com os princípios da Frente Patriótica de Libertação
Nacional, viria a apoiar a candidatura de Quintão Meireles e de Humberto
Delgado.
Em 1962 por integrar uma lista unitária do Circulo de Coimbra foi
rotulado de comunista e, por isso, mandado para o Aljube, cuja cela
compartilhou com o cantor José Mário Branco.
Em 1971, a pretexto de ter atingido o limite de idade, viu-se
desapossado do gabinete que possuía como director clínico do Hospital,
atitude que motivou a sua retirada para Coja.
Porém, no seio da população gerou-se um movimento de revolta que
determinou o seu regresso em atitude triunfal, sendo reintegrado com o
estatuto de «director clínico honorário».
Em 1973, na Alemanha, preside à reunião que marcaria o inicio do Partido
Socialista. Hoje, é Presidente Honorário daquele partido político.
Em 1974, o 25 de Abril é vivido na sua solarenga casa de Coja.
Distanciado mas não alheado, é indigitado para presidir à Comissão
Administrativa da Câmara e ratificado na maior manifestação pública
realizada em Arganil, em Maio de 1974.
O último cargo oficial que desempenhou foi como Governador Civil do
Distrito de Coimbra, nomeado pelo I Governo Constitucional, fechando um
ciclo longo e intenso, justificativo de diversas homenagens nacionais,
tais como as presididas pelo seu amigo Mário Soares, em 1976 como
Primeiro-Ministro, e em 1990 como Presidente da República; pelo também
amigo Almeida Santos, então presidente da A. R. aquando da celebração do
seu centenário. Distinguido com a Medalha de Ouro do concelho de
Arganil, e com as comendas das Ordens da Liberdade, e de Mérito,
Fernando Vale é um dos poucos que teve o privilégio de viver um século
de transformações em Portugal. |